Betim – Reinado de Nossa Senhora do Rosário


Imagem: Dossiê de Tombamento

O Reinado de Nossa Senhora do Rosário foi registrado pela Prefeitura Municipal de Betim-MG por sua importância cultural para a cidade.

Prefeitura Municipal de Betim-MG
Nome atribuído: Reinado de Nossa Senhora do Rosário (celebração)
Localização: Capela Nossa Senhora do Rosário – Praça do Rosário, s/n – Região Central – Betim-MG
Decreto de Registro: Homologação:13/01/2009 publicada no “Órgão Oficial – atos do Executivo e Legislativo”: 14/01/2010. Inscrição nº 1 no Livro de Registro nº IV (de festas)
Livro de Registro de Festas
Dossiê do Tombamento

Descrição: A celebração religiosa anual denominada por seus protagonistas como “Reinado de Nossa Senhora do Rosário” e popularmente conhecida como “congado” está em atividade ininterrupta em Betim há três décadas. Isto, depois de ter estado inativa por períodos intermitentes em meados do século XX, seja pela perda de lideranças importantes, seja pelo próprio caráter do desenvolvimento da cidade (urbanização, industrialização, configuração do catolicismo e de suas interfaces com outras religiões, dentre outros aspectos).
A atual vitalidade desta celebração religiosa em Betim apresenta intensa vinculação com o fomento garantido pelo poder público municipal, na esteira de uma ampla discussão sobre a necessidade de revigorar as “tradições”, de salvaguardar o patrimônio cultural e, especialmente, de proteger e fomentar as manifestações culturais das comunidades afrodescendentes.
Entretanto, como em outras cidades mineiras, a vitalidade do Reinado de Nossa Senhora do Rosário apresenta nuanças advindas dos processos sociais e culturais locais, que o tornam bastante específico e característico desta comunidade – Betim: é uma atividade cultural “residual” no cenário urbano atual, dominado pelo mundo do trabalho, pela aceleração das atividades cotidianas, pelas indústrias e pela tecnologia.
Muitos grupos que participam da celebração, aqui chamados “guardas”, têm sofrido redução numérica e abandonado ou esquecido diversas práticas historicamente relacionadas ao Reinado de Nossa Senhora do Rosário. A capacidade auto-organizativa dos grupos para a realização da celebração também sofreu redução, assim como podem ser identificados diversos outros fatores de desvitalização – mas também de recriação – desta manifestação […].
[…]
O Reinado de Nossa Senhora do Rosário surgiu e se desenvolveu no Brasil, a partir do século XVI, conforme a maioria de seus estudiosos. Segundo Lucas (2002), pode ser considerado uma celebração luso-afro-brasileira, pois Portugal forneceu a devoção a N. Sra. do Rosário, e povos africanos, especialmente os da cultura bantu (Angola e Congo), radicados no Brasil devido à escravidão, deram forma à festa, com base em pilares culturais desenvolvidos na África e na própria experiência da escravidão.
Ainda, alguns estudiosos, como é o caso de Martins (1991), defendem que a festa pode ter se iniciado ainda na África, onde os portugueses introduziram o culto a N. Sra. do Rosário com fins catequéticos. O século XVII é apontado como o período mais provável da origem do culto a Nossa Senhora do Rosário. Atribui-se às investidas estratégicas de conversão levadas a cabo por Domingos, o precursor da Ordem
Dominicana, sobre os negros “hereges” de Portugal. Apoiando-se no mito da visão da santa sobre as águas do mar, o sacerdote elegeu a reza do rosário e o culto a Nossa Senhora como forma de converter os negros ao catolicismo. Esse seria o evento fundamental que aproximou os cultos afro e a tradição católica.
Em Minas Gerais, onde o Reinado desenvolveu-se sobremaneira, sendo este Estado o que mais celebrações congadeiras concentra, a festa chegou no século XVIII.
O registro mais antigo da sua ocorrência em Minas pertence a André João Antonil, que aqui esteve de 1705 a 1706 (ANTONIL, 1963) e suas primeiras ocorrências são atribuídas ao território da atual Ouro Preto e associadas às histórias em torno de Chico-Rei, personagem sobre cuja existência não se tem registros inequívocos.
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As explicações para o surgimento da celebração são muitas e variadas: originalmente, a festa teria sido a narrativa das batalhas entre a nação dos congos, dirigida pelo Rei Cariongo e o Príncipe Suena, contra os moçambiques, liderados pela Rainha Ginga Nbandi; nesse caso, o nome adequado à festa seria mesmo “congado” e dela é que advêm as inúmeras designações e hierarquias militares ainda presentes na festa hoje: quartel, capitão, guarda, embaixador, soldado, farda, etc.. Com as transformações e influências historicamente recebidas, inclusive da devoção ao Rosário, a festa teria perdido o caráter de narrativa, e o Rei Cariongo e a Rainha Ginga teriam sido unidos num só “reinado” em adoração à Nossa Senhora. Congos e moçambiques não mais guerreiam entre si, mas exercem diferentes funções em honra à santa de devoção. O formato mais antigo da festa, no nordeste, seria o congado, enquanto em Minas, no século XVIII, a festa assumiu o formato de reinado.
Em outra versão, a festa seria uma representação do embate entre as monarquias africanas e o colonizador do Brasil; ou a versão afrodescendente das lutas entre cristãos e mouros na França, e, por isso, uma manifestação próxima à cavalhada – esta adotada pelos brancos e senhores (KATRIB, 2004). Em alguns lugares de Minas Gerais, essa última explicação pode ser reforçada pelo fato de que as congadas estiveram associadas a antigas representações da luta entre mouros e cristãos, como é o caso das Embaixadas de Campanha – MG (REILY, 2001) e da Contradança de Betim – MG (FONSECA, 1975).
Segundo Reily (2001), as cortes eram organizadas no interior das irmandades de negros, especialmente as irmandades de N. Sra. do Rosário. No período colonial,  as irmandades eram as principais instituições a ligar a Igreja e a sociedade e suas principais atividades envolviam caridade, mas também eventos religiosos e sociais. A maioria das irmandades era organizada segundo critérios raciais e cada irmandade promovia um festival anual para seu santo padroeiro. Esses festivais expressavam a competitividade entre as irmandades, através da ostentação, mas também constituíam uma forma de equalização entre as classes (NERY, 2007).
A organização dos escravos em irmandades era estimulada pelas autoridades coloniais, as quais frequentemente podiam influenciar a definição de quem comporia as cortes negras. Roger Bastide, por exemplo, concluiu que o rei congo tinha a função de mediação entre as populações negras e as autoridades coloniais. Os negros tinham assim uma forma de participação na ordem colonial, ainda que marginal. Outros estudiosos acham que as cortes exerceriam um papel compensatório, criando para os negros uma ilusão de autonomia. Porém, funcionando ou não como organizações políticas, as irmandades tiveram importante papel na reunião de fundos para a compra da liberdade de seus membros, além do evidente papel de recreação e uso do tempo livre.
Em Minas, a festa teria se desenvolvido a partir da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário da Freguesia da Senhora do Pilar de Ouro Preto, fundada em 1715, e que teve seus estatutos aprovados pelo Bispo do Rio de Janeiro, Dom Frei Francisco de São Jerônimo. Estes primeiros estatutos desapareceram, mas, em 1733, foram confirmados com algumas modificações. […]
Fonte: Dossiê do Tombamento.

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